Passava já da hora que tinha determinado para se deitar, era certo que não era naquela noite que ia retomar o tempo de sono perdido. Sentia os pés frios e os olhos quentes, no quarto mergulhado em penumbra a luz do ecrã do computador queimava-lhe as pálpebras. Não havia motivos para se manter acordado e, no entanto, não conseguia tirar os olhos do texto à sua frente como se a qualquer momento ele fosse trazer algo de novo. Leu uma, duas, três vezes. Reteve-se sobre uma ou outra frase e depreendeu significados diferentes, porventura algum deles estaria certo, ou então poderia mesmo ser que não houvesse nenhum. Procurou ler nas entrelinhas, mas eram apenas espaços brancos. Perguntou-se acerca da pontuação, esperando ver reticências no lugar de um ponto final, ou talvez uma vírgula, mas nada disto se confirmava.

E então teve vontade de escrever, mas o fazer traía-lhe o querer. Era mais fácil colocar uma música a tocar e desprender-se da culpa de não ser capaz de se exprimir para se esconder atrás de palavras que não eram as suas, mas que tinham o mesmo sabor amargo que experimentava naquele momento.

Iria dormir e esquecer por um pouco, para no dia seguinte proceder ao mesmo e dar continuidade àquele ciclo.

20 May 2012 / 0 notes

Não sei, mas também não quero perguntar. Deixei escapar provavelmente muita coisa com esta maneira de ser, mas não consigo ser de outra. Entretanto o tempo passa e perde-se o sentido das coisas, enquanto eu acabo por me convencer de que não era importante ou de que não era mesmo para ser.

3 May 2012 / 0 notes

Quando o autocarro parou à luz vermelha do semáforo, ela tornou-se mais sensível aos sons de dentro do veículo. Em particular, aos estalidos que fazia um miúdo sentado à sua esquerda, no banco do lado oposto do autocarro, ao transportar um caramelo de um lado para o outro da boca com a língua. De vez em quando o caramelo ia embater nos dentes de leite, incapazes de quebrar o bloco rígido de açúcar, e o som fazia percorrer uma sensação de dor aguda nos seus próprios dentes, reflexo da memória que tinha de muitas vezes se ter magoado de maneira semelhante.

Sabia que estava de bom humor naquele dia, porque se permitia apreciar momentos como aquele, pequenos disparates na verdade, mas que, numa outra ocasião, teriam antes aguçado a sua impaciência. Sorriu em pensamento e, sem se aperceber, o seu rosto esboçou esse sorriso.

O autocarro parou para deixar alguns passageiros, de entre os quais uma mulher que viajava à sua frente num banco tornado para o lado posterior. Ela esperou alguns segundos antes de ocupar o lugar deixado vago, antecipando o troço em descida que se seguia e que tanto gozo lhe dava percorrer sentada naqueles bancos, de costas para o caminho.

Quando o autocarro fez a sua última paragem, sentiu preguiça de abandonar o seu lugar, de tal forma tinha sido embalada pela viagem. A torrente de pessoas que se começou a aproximar das portas de saída apressou-a a levantar-se e a seguir-lhes o exemplo, cautelosamente avançando e de olhos postos no chão, com medo de pisar o pé de alguém por acidente.

Lá fora estava frio e a biblioteca, que ficava a poucos passos da paragem, só abria dali a meia hora. O caminho a pé não chegava para aquecer minimamente o corpo, tampouco para dar tempo ao primeiro funcionário de chegar antes dela e abrir as portas. Assim, teve de aguardar durante mais algum tempo junto do edifício antigo que constituía a biblioteca, as mãos nos bolsos e o pescoço afundado nos ombros para que o casaco pudesse cobrir parte dele. E então, fitando o vazio, perdeu-se numa malha de pensamentos aparentemente desconexos mas com uma lógica própria deste tipo de meditação.

Perguntava-se o que havia naquela rotina que ao mesmo tempo dava e tirava o sentido àquela vida precária. Se seria bom afastar-se dela? Não, pois sentia já falta do conforto que ela trazia. Mas, se ainda assim, o considerasse, que podia ela fazer que fizesse mais sentido? Já passara da idade em que o futuro lhe prometera tudo e sentia-se agora pressionada a provar que era capaz de alcançar esse tudo, respondendo às expectativas que já não sabia ao certo de quem eram, se eram mesmo dos outros, ou se as tinha criado para si mesma.

Uma pestana entrou-lhe no olho direito, interrompendo-lhe o pensamento. Pressionou a pálpebra com os dedos e massajou-a em movimentos circulares para que a pestana saísse, e eventualmente ela acabou por sair. Esperava no entanto que lhe saísse também uma lágrima, mas o olho permaneceu coberto por uma camada espessa de líquido lacrimal, turvando-lhe a vista. Era bastante incómodo e ao mesmo tempo embaraçoso, ficar especada no meio do passeio, com pessoas constantemente a passar de um lado para o outro, com um olho vermelho, que dava o aspecto de que estivera a chorar. Aquele momento trouxe-lhe à memória um outro igualmente desagradável e, quando deu por si, uma série de sentimentos indesejados tinham-na tomado de assalto. Instintivamente, cerrou os olhos com força para os fazer desaparecer a todos. Sentiu-se estúpida, depois.

2 May 2012 / 0 notes

What I do in the meantime. (by prescience)

What I do in the meantime. (by prescience)

30 Apr 2012 / 0 notes